A percepção agora é de que a empresa mudou bastante nos últimos tempos, principalmente na forma como trata os colaboradores e conduz sua operação.
Muitas pessoas entraram na BLU em um momento em que o home office fazia parte da realidade da empresa e era, inclusive, um dos atrativos das vagas no cenário pós-pandemia. Para muitas, esse modelo era o que tornava a oportunidade viável. A mudança para o híbrido, depois de anos nesse formato, aconteceu de forma brusca e com pouco prazo de adaptação, impactando diretamente a rotina, a saúde e a qualidade de vida de quem trabalha na empresa.
A exigência de três dias presenciais seguidos, somada à localização pouco central do escritório, tornou a rotina extremamente cansativa. Há pessoas que precisam acordar muito cedo para conseguir chegar e só retornam para casa à noite. Isso vem gerando desgaste físico, emocional e mental. Em alguns casos, há colaboradores adoecendo, mães enfrentando dificuldades sérias para conciliar a rotina da casa e dos filhos, e muita gente permanecendo nessa dinâmica por medo de perder o emprego.
O problema não é apenas o híbrido em si, mas a forma como ele foi implementado e vem sendo conduzido. Falta diálogo, falta escuta e falta flexibilidade. A sensação é de que os funcionários passaram a ser tratados como crianças, e não como adultos responsáveis pelas próprias entregas. O ambiente transmite controle excessivo e microgerenciamento. Há monitoramento constante de presença, pouca abertura para adaptação de situações reais e um clima de vigilância que contrasta com a cultura de confiança que a empresa já teve.
No escritório, algumas equipes têm lugares marcados para sentar, o que reforça ainda mais esse ambiente engessado e controlador. Não existe uma sensação de autonomia ou de espaço saudável de convivência. Fala-se em organização, mas o que muitas pessoas sentem é falta de espaço para descompressão, excesso de regras e pouca humanização no dia a dia.
A própria estrutura física do escritório também deixa a desejar para a quantidade de pessoas que passaram a frequentar o espaço. As baias são muito apertadas, há cadeiras desconfortáveis e até quebradas, poucos micro-ondas para muitas pessoas e banheiros pouco práticos para a dinâmica de várias equipes ao longo de um dia inteiro. Em vez de promover colaboração e integração, o presencial muitas vezes se torna apenas mais uma fonte de desgaste.
Outro ponto que chama atenção é a incoerência em questões operacionais e de gestão. Metas às vezes são liberadas e, com o mês já correndo, acabam sendo corrigidas ou ajustadas depois, o que gera insegurança, confusão e sensação de falta de planejamento. Isso impacta diretamente a rotina de quem depende de direcionamento claro para trabalhar com foco e previsibilidade. Em uma empresa orientada por performance, esse tipo de instabilidade prejudica não só a operação, mas também a confiança das equipes.
Também existe uma contradição quando se fala tanto em organização do ambiente. Na prática, há apenas uma pessoa responsável pela limpeza e organização de diversas salas, o que claramente gera sobrecarga. Ainda assim, os funcionários recebem reclamações se houver qualquer coisa fora do lugar, mesmo em um cenário em que muitas pessoas dividem espaços pequenos e a estrutura de apoio não parece suficiente para a demanda. Isso cria um ambiente em que se cobra muito, mas se oferece pouco suporte proporcional.
Em relação à produtividade, a percepção de muitas pessoas é de que ela não aumenta simplesmente pela presença física. Pelo contrário: o desgaste gerado pelos deslocamentos, pela falta de conforto e pelo esgotamento dos dias presenciais acaba afetando até mesmo os dias de home office. Há pessoas muito comprometidas deixando a empresa, enquanto outras conseguem sustentar apenas a aparência de presença sem necessariamente entregar resultado real. Considerando que a empresa possui metas e indicadores, faria mais sentido avaliar desempenho por entrega e qualidade, não por controle excessivo de presença.
O mais frustrante é perceber que a BLU já teve uma essência mais humana. Havia maior proximidade, sensação de cuidado e a impressão de que as pessoas eram vistas como parte importante da construção do negócio. Hoje, para muitas pessoas, essa essência vem se perdendo. A empresa parece cada vez mais focada em controle, e menos em confiança, escuta e valorização genuína de quem faz a operação acontecer.
Ainda assim, é uma empresa que tem pontos positivos e que poderia ser muito melhor se houvesse mais coerência entre discurso e prática. Há tempo para ouvir mais os colaboradores, rever excessos, melhorar a estrutura, dar mais previsibilidade às metas e buscar um equilíbrio mais saudável entre necessidade do negócio e bem-estar das pessoas.